ACV Organizacional – uma nova tendência

A gestão ambiental empresarial atualmente está sofrendo uma mudança de paradigma, na qual uma atuação focada apenas nos limites físicos da organização (conhecida como “gate-to-gate”) não é mais suficiente para se buscar o desenvolvimento sustentável. Portanto, o escopo da gestão ambiental deve considerar toda a cadeia de valor, através da perspectiva de ciclo de vida. Acredita-se que esta mudança de paradigma será catalisada através da nova versão da norma ISO 14001, que agora exige que os aspectos ambientais de uma organização sejam quantificados (e conseqüentemente gerenciados) através desta abordagem.

A importância desta evolução em termos de expansão da responsabilidade sobre a cadeia produtiva já foi comprovada por diversos estudos científicos. Em um artigo publicado na renomada revista científica Environmental Science & Technology em 2009, pesquisadores da Universidade de Carnegie Mellon (Estados Unidos) mostraram que para a grande maioria de setores industriais, mais de 75% das emissões de gases de efeito estufa de uma organização ocorrem fora de seus limites, de forma indireta (por exemplo, na extração de matérias-primas) (veja o estudo na íntegra). Outro estudo, feito pela organização GreenBiz, mostrou que apenas 20% dos impactos ambientais de diversas indústrias ocorrem devido a processos internos (leia aqui).

 

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Figura obtida do Guia do PNUMA em ACV Organizacional

Mesmo que o conceito seja recentemente mais difundido nos setores industriais, já existem algumas abordagens de gestão ambiental que adotam este novo paradigma. Um exemplo é a contabilização de gases de efeito estufa de organizações, em específico, quando é levado em conta os três escopos de análise. Porém, mesmo que o GHG protocol tenha desempenhado papel fundamental para a aceitação de que os impactos não começam ou terminam “na estante do supermercado”, esta forma de análise é focada apenas em um tipo de encargo ambiental (mudanças climáticas). Para o correto planejamento de ações é necessário ter uma visão mais holística, para evitar a “transferência de impactos ambientais”. Esta visão é alcançada quando se passa a considerar o ciclo de vida na tomada de decisão, através de suas ferramentas, como a avaliação do ciclo de vida (ACV).

Originalmente criada para ser utilizada em produtos, a ACV pode ser empregada para análise ambiental de outros tipos de sistemas, como pessoas, países/regiões e organizações. Com relação ao último, a ISO lançou em 2014 a norma 14072, que trata de Avaliação do Ciclo de Vida Organizacional (ainda sem tradução para português pela ABNT), e em 2015 o Programa Life Cycle Initiative, gerenciado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lançou um guia para ACV Organizacional (veja documento na íntegra). Este guia traz exemplos de empresas que realizaram a ACV Organizacional, incluindo casos de empresas brasileiras como a Natura. O documento demonstra as vantagens de implementar esta ferramenta e as diferenças e semelhanças entre ACV Organizacional e ACV para produtos.

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A ACV Organizacional surgiu a partir da ACV de produtos, que é baseada nas normas ISO 14040 e ISO 14044, e, portanto, apresentam diversas semelhanças na sua aplicação, como ser dividida em 4 etapas (Definição de Objetivo e Escopo; Análise de Inventário; Avaliação de Impacto; e Interpretação), adotar a perspectiva de ciclo de vida, exigir grande quantidade de dados e que sejam de qualidade, ser utilizada para tomada de decisão, permitir identificar gargalos no sistema e proporcionar prioridades de ação, entre outras.

Por outro lado, elas apresentam diferenças devido ao objeto de estudo – uma organização, para ACV Organizacional; produto(s), para ACV de produtos – e que é importante conhecer para aplicar estas ferramentas de maneira mais eficiente. O guia criado pelo PNUMA menciona que basicamente não há diferenças entre as ferramentas nas etapas de Avaliação de Impacto e Interpretação, mas para as outras, pode-se citar:

  • Objetivo e Escopo

– A ACV organizacional não pode ser usada para comparações entre organizações;

– O período de referência geralmente é de um ano;

– Necessidade de deixar claro quais aspectos/impactos ambientais são diretos e indiretos;

– Geralmente uma ACV organizacional incluirá mais de um produto na análise.

  • Análise de Inventário

– Equipamentos de processos (p.ex., caldeiras) e do ambiente de trabalho (p.ex., ar condicionado) devem ser quantificados, levando em consideração o tempo de vida, bem como atividades de suporte, como marketing e design de produto;

– Há um desafio maior para modelar as fases de uso e fim de vida, pois, muitas vezes, uma organização produz um produto intermediário (p.ex., resina de PVC). Neste caso, sugere-se modelar produtos finais representativos (p.ex., tubos de PVC);

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Além disso, o manual da PNUMA aborda diferentes estratégias para que empresas adotem a perspectiva de ciclo de vida e passem a usar a ACV Organizacional, dadas suas vantagens. Estas estratégias foram agrupadas em 4 caminhos, o qual são específicos dependendo do nível de gestão ambiental já incorporada pela organização:

– Empresas com um conhecimento ambiental limitado;

– Empresas que já possuem avaliações ambientais, mas focadas apenas no nível gate-to-gate;

– Empresas que já realizaram a ACV de algum de seus produtos;

– Empresas que já realizaram uma espécie de ACV Organizacional, porém considerando apenas um indicador ambiental (p.ex., gases de efeito estufa).

A partir dessa diferenciação de caminhos, é possível perceber que a ferramenta pode ser implantada na organização, independentemente do seu nível de maturidade ambiental.

Na figura abaixo temos uma situação hipotética de uma organização que fez a ACV de seus produtos (produto 1, 2 e 3) e também a ACV organizacional, com a contribuição dos impactos ambientais divididos por etapas (fornecedores, na própria indústria da organização, na fase de uso de seus produtos e na disposição final de seus produtos).

Primeiramente pode-se observar que uma organização que não adota a perspectiva de ciclo de vida (quadro pontilhado em preto) terá uma visão limitada de seus aspectos e impactos ambientais, negligenciando a maior parte destes, que ocorrem em outras etapas (p.ex., nos processos relacionados ao Fornecedor 2). Por outro lado, uma organização que realizou a ACV de apenas um produto (quadro pontilhado em azul) poderá tomar decisões equivocadas, como focar esforços em reduzir os aspectos e impactos causados pelo Fornecedor 2. Por outro lado, quando avaliado outros produtos, verifica-se que o Fornecedor 1 é o principal contribuinte para os aspectos e impactos da Organização, quando se dá foco a todos os processos e produtos envolvidos.

exemplo_ACV_organizacional

A perspectiva do ciclo de vida é a abordagem mais eficiente para que organizações possam buscar a sustentabilidade ambiental de seus negócios, e a ACV Organizacional vem para preencher algumas lacunas deixadas pela ACV de produtos. Desta forma, estas duas ferramentas são complementares. Ainda, ao se implementar a ACV Organizacional, atende-se as às exigências da nova versão da ISO 14001 quanto aos aspectos ambientais, de forma mais eficiente, e o controle pela mitigação dos impactos ambientais causados por uma organização passa a ser mais eficaz

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